segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Quem liga se tudo soa como instrumento desafinado
Guarda-roupas lotado e todo bagunçado
O apartamento não limpo há dias
Memória cheia e garrafa vazia
Um tropeço ou dois
Só fecho a porta
Giro a chave

Fui embora.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

 Eu tenho tanta coisa entalada pra te dizer. Nada é pouco vindo de mim, você conhece a minha intensidade. Você sabe bem a hipérbole megalomaníaca que sou e lida bem com isso. Acostumou-se com as repetidas vezes que cortei as suas frases porque tenho uma necessidade enorme de falar e falar e falar. E quando não falo eu escrevo e escrevo e escrevo. As cartas que te escrevi certamente são o suficiente para um livro. Um livro de drama adolescente para ser lido ao som de Best Coast. Minha intensidade me machuca.
Eu atropelei tudo que pude para chegar aqui, não respeitei os sinais e pago a penalidade por querer viver tudo, ser tudo e tudo ao mesmo tempo. Eu quero chegar ao infinito. Quero ser infinita ao seu lado. O problema é: você está pronto pra ser tão intenso quanto eu?

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O dia estava roxo como as flores roxas caídas pela calçada torta. O dia estava roxo e torto e o cenário fazia jus a isso. É assim que eu fico quando você se vai: roxa e torta.
O dia não se ajusta, eu pareço a chave errada tentando abrir a porta. Os roxos das mordidas ficam. O cheiro dos inúmeros pés de jasmim não me parecem convidativos mais.
É como sentir o seu perfume por aí e saber que não é você. É me recusar a gostar do seu perfume se outro estiver usando. Assim como os pés de jasmim. Quando criança, o florescer dos jasmineiros era um dos eventos mais aguardados do ano. Em vão, tantas vezes, tentei aprisionar aquele odor que tanto me agradava em potinhos que guardava debaixo do travesseiro só pra ficar sentindo. E eu sentia, por duas ou três noites. E depois vinha o cheiro podre. Eu aprisionei o seu cheiro por mais do que dois ou três dias no potinho mais bonito, no melhor lado debaixo do travesseiro. Agora só o que eu sinto é podridão.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Tudo nesse dia empalideceu
Dissolveu-se em neblina, cobrindo
Todas essas árvores pedindo primavera
E o inverno dá seu último adeus
Desculpando-se por não comparecer.

E coitada de mim, logo hoje
Queria tanto me colorir...
Nas unhas verde jade
Na boca vermelho escarlate
Mas como a névoa e  a chuva fina
Cinza sou, cinza permanecerei.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Let's let it all wash out in the rain

Algumas manhãs são tão lindas
Que tanto me dói
Ter tanto compromisso
Um dia tão corrido
Tanta falta de tempo
Pra parar e observar
Todo esse céu em alento
Ou a chuva fina no telhado
Que até a alma gela.
O vidro do carro embaçado
Aquela pequena eternidade
Dos seus olhos sorrindo pra mim

Como a delicadeza dos pingos
Caindo e escorregando na cama.
Mas a correria não dá trégua
E o banho de chuva, que pena
Sempre fica na espera.


terça-feira, 2 de setembro de 2014

Em vão hoje tentei o vazio preencher
Com uma xícara cheia de chá
E foi assim que
Na fria manhã invernal
Descobri que saudade queima a língua

Crime Perfeito

Quando acordei o mundo girava tão grande
Enquanto eu continuava sempre tão pequena
Tanto que
Roubei você pra mim
E ninguém nem viu.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Flow

Eu gosto do ar da cidade, do vento que bate de prédio em prédio até colidir comigo, num ciclo infinito. Eu gosto do frio do vento que bate em mim e me faz sentir viva. Eu estou viva.

As cores da cidade, a mistura de gostos, imagens e peculiaridades que a gente sempre encontra e coleciona ao dobrar as esquinas por aí. O movimento de cruzar meu caminho com o de tanta gente que eu nunca mais vou ver ou conhecer. O que me resta é adivinhar o que toda essa gente faz, do que gosta e aonde vai com tanta pressa? Volta. Vivo me apaixonando por pequenos detalhes soltos em todo esse vem e vai. O desconhecido é tão excitante justamente por ser assim, misterioso.
Então, em meio ao frio do vento que bate no prédio e volta em mim, descobri o motivo da minha melancolia. Me conheço bem demais, não tem mistério, não tem nada para vasculhar e descobrir. E é por isso que eu me escondo tanto atrás de todos esses disfarces que não duram para sempre. Alguns dias, como em Live Forever, "você sente a dor da manhã chuvosa como se estivesse molhado até o osso". Alguns dias a existência é insuportável.


Apenas sigo colecionando o que encontro pelas esquinas, por aí. Alguns desgostos, outros delícias, muitos insípidos e inodoros. E como água, deixo fluir.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Quantas linhas mais
Terei que escrever
Até você perceber
Que o que sinto por ti
Não cabe aqui.

Papel amassado
Texto não terminado
Noite não dormida
Vento fresco lá fora
 E você
Cada vez mais aqui dentro.


Viver com intensidade
O que nos resta desse amor
Abandonar a sanidade
Pra depois
Sentir saudade

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

E logo estamos na sua cama, no calor da euforia embaixo da sua colcha de retalhos. Rapidamente o meu frio se dissolve no seu calor. Agora, com mais intensidade do que nunca, sei que pertenço a essa bagunça que é você, que somos nós. Nós, tão nós como os nós impossíveis de serem desfeitos nos meus fios de cabelo.
Você sempre é o único que consegue ouvir as palavras que não digo, dissolvendo esse silêncio absoluto, arrancando tudo que é amargo. Agora tudo soa doce como seu gosto dentro da minha boca.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Eu sou Indie Rock
Ele é Metal.
Mas a gente se encontra no Shoegaze.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Lupita

Nunca aventurei-me muito pelo gênero conto, mas eis que surgiu um trabalho da faculdade na matéria de Criação Verbal ao qual foi solicitado a criação de um conto. Penei um pouco, mas saiu. Aqui o resultado em um gênero totalmente novo e experimental para mim, ao qual titulei "Lupita".

Lupita era mestiça índia, tinha pele morena, corpo esguio e sinuoso. Vestia roupa apertada, dando ênfase àquele corpo perigoso que bem sabia que tinha. Chegava todo dia tarde. Ou será que era cedo demais? O canto matinal dos pássaros era sua canção de ninar.
Lupita subia as escadas do prédio antigo que morava, quase sempre ao som de MPB da vizinha do primeiro andar. Elis, Maria Bethânia, ás vezes Rita Lee. “Todos os homens desse nosso planeta pensam que mulher é tal e qual um capeta conta a história que Eva inventou a maçã..” Ela subia cantando e dançando, mesmo que seus joelhos tivessem trabalhado muito naquela noite. Estava sempre feliz ao olhar dos vizinhos, cumprimentava sempre sorrindo mesmo que soubesse que eles mal-diziam seu estilo de vida.
De segunda à segunda, um por dia, ás vezes dois. Sugar daddys ou menininhos. Lupita não se importava em ser mal paga. Ou muito bem paga pelos seus queridos sugar daddys. Eram seus preferidos, não só pelo pagamento, que julgava pouco relevante, já que tanto gostava daquela vida que levava, a vida à levava. Gostava da experiência que eles colecionavam, os causos e casos que ela pacientemente passava horas ouvindo-os contar. Alguns só a pagavam pra isso, um jantar e alguém pra conversar. Lupita adorava todas aquelas pequenas paixões, que duravam tão pouco. O prazer de não ser conhecida e de não conhecer, poupar-se de tantas discussões de relação. E ser cada dia uma, realizando tantas fantasias e ao mesmo tempo realizando as próprias. Ela costumava dizer: - Ser puta é um dom, quase uma arte. - Sábias palavras e muito bem aplicadas à ela, pois Lupita tinha mesmo o dom de saber o que esperavam dela. Ela não dizia nada sobre si, apenas deixava subentendido, misteriosa como era. Até mesmo com os mais próximos como eu. 
Certo dia, não me lembro quando, um dia qualquer. Lembro que era feriado, com todo o tédio costumeiro desse tipo de dia e a cidade estava vazia. Lupita chegou me dizendo que estava apaixonada, que estava disposta a abandonar a vida que tanto gostava e reduzir todas as suas paixões em uma só. E começou a me falar sobre o sujeito e os planos que fizera com ele. 
   - É um homem de um milhão de dólares! É quente como um garoto de 19, porém sábio como um homem de 50. -Dizia ela eufórica e sem vírgulas na fala. - Nós vamos nos casar no Hawaii e morar na Califórnia. E depois em Toronto, Londres, Dublin e Argel. O mundo vai ser a nossa casa.
  Eu não iria discordar. Não palpita-se ou opõe-se à decisão de uma mulher como ela. Esperta, ela daria mil e uma razões, todas muito bem argumentadas e seria em vão. Lupita era capaz de fazer um homem cético acreditar em fadas e duendes. 
Esses dias encontrei Lupita por aí, costumeiramente sorridente. 
 - O que faz aqui? Já voltou? -Perguntei
 -Nem fui. - Respondeu ela com tom de quem não se importava muito.
 -E onde está o seu homem de um milhão de dólares?
 - Era um cheque sem fundo. Ou eu sou daquele tipo de pessoa que quando ganha na loteria gasta tudo no primeiro mês. Ou ainda, acredito que essa opção seja a mais válida, sou aquela que doa toda sua fortuna para um time de futebol qualquer porque não se vê com todo aquele dinheiro. Estou acostumada a ser quem eu sou, essa é a minha essência, se é que você me entende. 

E eu entendia. Era só feriado, a cidade estava só vazia e Lupita agora queria a graça dos dias comuns. 

quinta-feira, 20 de março de 2014

Manteiga derretida

Eu choro pelo leite derramado
Faço drama e perco a calma.
Eu choro por antecedência
Pelo passado
E pelo perdido.

Eu choro quando vejo os outros chorando
Choro mais do que choveu hoje
Sem motivo
Sem causa.

Transbordo tanto que sai pelos olhos
Até se estou feliz, é demais pra mim
Choro por tudo
E por nada.


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O dia em que me arrumei toda e não saí
O almoço que fiz e não comi
O vestido que mandei encurtar, mas nunca usei
O que eu quis dizer e não consegui
O dia que saí na chuva e preferi abrir a sombrinha
O querer a chuva, mas não querer me molhar.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Paro tudo só pra te sentir dentro de mim
Exprimo nas palavras escritas o que
Eu não ouso dizer quanto olho no fundo
Desses olhos quase verdes teus
E canto qualquer música boba de amor
Só pra lembrar que eu vou e você fica
Cada vez mais aqui dentro.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Elvira.

Muitas noites comigo dormiu
Outras tantas preferiu fugir pela janela
Pra que lugar, sabe-se lá onde
Divertiu-se, livre como qualquer gata
Feliz e bem amada
Maior companhia minha
Seus grandes olhos amarelos
Fitavam todos os detalhes
De qualquer coisa que eu fazia.

Se foi antes que completasse 4 invernos
Pra onde, quem sabe, algum dia
Encontrarei-a caçando ratinhos
Comendo Friskies sabor fígado
E dormirá comigo, mordendo meu pé
Nem que for por mais uma noite, por favor
Assim poderei continuar sentindo sua ausência
Todos os dias, para sempre.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Life is beautiful but you don't have a clue sun and ocean blue.

Bonitas mentiras desenhadas sobre uma falsa felicidade. Castelos de mármore que desmoronam como se fossem areia em dia de tempestade na praia. Mas tudo continua bem. -Eu estou bem. -repete para si mesma constantemente. Acaba se convencendo disso, é o melhor e é o mais fácil. Difícil é ser triste e ouvir que está dificultando as coisas. Quem foi que disse que a vida é fácil e que nós é que complicamos? É tão difícil admitir a tristeza. Ela chega devagarinho nesses dias quentes e alucinantes, quase imperceptível. Manifesta-se naqueles minutos antes de dormir e é quase impossível não derreter como manteiga nesse calor de quase 40 graus. Mergulhar no oceano mais azul tornou-se rotina.
Mas a vida é bonita e o sol está brilhando. É quarta-feira e tem feira.