segunda-feira, 12 de maio de 2014

Lupita

Nunca aventurei-me muito pelo gênero conto, mas eis que surgiu um trabalho da faculdade na matéria de Criação Verbal ao qual foi solicitado a criação de um conto. Penei um pouco, mas saiu. Aqui o resultado em um gênero totalmente novo e experimental para mim, ao qual titulei "Lupita".

Lupita era mestiça índia, tinha pele morena, corpo esguio e sinuoso. Vestia roupa apertada, dando ênfase àquele corpo perigoso que bem sabia que tinha. Chegava todo dia tarde. Ou será que era cedo demais? O canto matinal dos pássaros era sua canção de ninar.
Lupita subia as escadas do prédio antigo que morava, quase sempre ao som de MPB da vizinha do primeiro andar. Elis, Maria Bethânia, ás vezes Rita Lee. “Todos os homens desse nosso planeta pensam que mulher é tal e qual um capeta conta a história que Eva inventou a maçã..” Ela subia cantando e dançando, mesmo que seus joelhos tivessem trabalhado muito naquela noite. Estava sempre feliz ao olhar dos vizinhos, cumprimentava sempre sorrindo mesmo que soubesse que eles mal-diziam seu estilo de vida.
De segunda à segunda, um por dia, ás vezes dois. Sugar daddys ou menininhos. Lupita não se importava em ser mal paga. Ou muito bem paga pelos seus queridos sugar daddys. Eram seus preferidos, não só pelo pagamento, que julgava pouco relevante, já que tanto gostava daquela vida que levava, a vida à levava. Gostava da experiência que eles colecionavam, os causos e casos que ela pacientemente passava horas ouvindo-os contar. Alguns só a pagavam pra isso, um jantar e alguém pra conversar. Lupita adorava todas aquelas pequenas paixões, que duravam tão pouco. O prazer de não ser conhecida e de não conhecer, poupar-se de tantas discussões de relação. E ser cada dia uma, realizando tantas fantasias e ao mesmo tempo realizando as próprias. Ela costumava dizer: - Ser puta é um dom, quase uma arte. - Sábias palavras e muito bem aplicadas à ela, pois Lupita tinha mesmo o dom de saber o que esperavam dela. Ela não dizia nada sobre si, apenas deixava subentendido, misteriosa como era. Até mesmo com os mais próximos como eu. 
Certo dia, não me lembro quando, um dia qualquer. Lembro que era feriado, com todo o tédio costumeiro desse tipo de dia e a cidade estava vazia. Lupita chegou me dizendo que estava apaixonada, que estava disposta a abandonar a vida que tanto gostava e reduzir todas as suas paixões em uma só. E começou a me falar sobre o sujeito e os planos que fizera com ele. 
   - É um homem de um milhão de dólares! É quente como um garoto de 19, porém sábio como um homem de 50. -Dizia ela eufórica e sem vírgulas na fala. - Nós vamos nos casar no Hawaii e morar na Califórnia. E depois em Toronto, Londres, Dublin e Argel. O mundo vai ser a nossa casa.
  Eu não iria discordar. Não palpita-se ou opõe-se à decisão de uma mulher como ela. Esperta, ela daria mil e uma razões, todas muito bem argumentadas e seria em vão. Lupita era capaz de fazer um homem cético acreditar em fadas e duendes. 
Esses dias encontrei Lupita por aí, costumeiramente sorridente. 
 - O que faz aqui? Já voltou? -Perguntei
 -Nem fui. - Respondeu ela com tom de quem não se importava muito.
 -E onde está o seu homem de um milhão de dólares?
 - Era um cheque sem fundo. Ou eu sou daquele tipo de pessoa que quando ganha na loteria gasta tudo no primeiro mês. Ou ainda, acredito que essa opção seja a mais válida, sou aquela que doa toda sua fortuna para um time de futebol qualquer porque não se vê com todo aquele dinheiro. Estou acostumada a ser quem eu sou, essa é a minha essência, se é que você me entende. 

E eu entendia. Era só feriado, a cidade estava só vazia e Lupita agora queria a graça dos dias comuns. 

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